Assunto mais comentado nos
últimos dias, o julgamento de Lindemberg Alves, assassino da adolescente Eloá
Pimentel, ressurge após três anos do acontecimento do fato, com a mesma
intensidade e trazendo novos elementos, cuja atenção não foi devidamente dada
naquela época.
O caso teve repercussão nacional
e teve um desfecho trágico diante das câmeras de TV de todo país, causando
comoção nacional. Que Lindemberg cometeu um crime, isso é fato! Também é certa
a sua condenação, dada a torpeza do crime e as circunstâncias. Mas, saindo da
esfera do emocional e analisando a situação, chama atenção à estratégia de
defesa, capitaneada pela advogada Ana Lúcia Assad. Tratada pela imprensa como “a-advogada-que-quer-aparecer”,
Assad tocou numa ferida que a mídia não gosta e faz de tudo para rechaçá-la.
Qual a estratégia da advogada?
Pretende levar o caso para crime passional, o que beneficiaria o réu. Mas não
venho aqui tratar do juridiquês nem tão pouco discutir de forma pormenorizada a estratégia da defesa
nesse caso. Isso eu deixo para os ilustres causistas e suas portas de cadeia. O
que chama a atenção nesse episódio é fato de que a advogada em questão
levanta a responsabilidade da polícia –
cuja ação foi além do que desastrosa – e o papel da mídia nesse caso.
A defesa levanta a possibilidade
de que a cobertura do caso pela mídia tenha influenciado no desenrolar dos
acontecimentos. Exagero? Nem tanto, considerando que uma apresentadora de TV
conseguiu entrevistar o seqüestrador (Lindemberg) ao vivo, mantendo a
adolescente em cárcere. Quer mais? O excesso de informações de detalhes
policialescos, durante 24 horas,
proporcionou a criação de um ambiente de comoção nacional, onde o
acusado possivelmente deve ter sido influenciado, o que pode ter contribuído definitivamente
para o desfecho do seqüestro. O que eventualmente deveria ser algo que chamasse
a atenção e que poderia ser resolvido de uma forma mais simples tomou
proporções incontroláveis.
O julgamento trouxe à tona o
debate envolvendo a participação da mídia na cobertura de eventos dessa
natureza. Há muito vem sendo usada a expressão “espetacularização da notícia”,
termo mais do que apropriado para tratar a forma com que os meios de
comunicação se comportam diante da divulgação de fatos e o uso deles perante a
opinião pública. Hoje, a mesma mídia que lutava para mostrar todos os detalhes
do seqüestro, chegando até mesmo a entrevistar o seqüestrador, se arvora em
justiceira e já estabeleceu a sentença antes mesmo do Poder judiciário
proferi-la. Lindemberg foi condenado antes mesmo de pisar no tribunal.
É irresistível a comparação do
caso com o filme “O Quarto Poder”, do diretor Constantin Costa Gavras. Nele, um
segurança de um museu perde o emprego e, desesperado, volta armado ao local de
trabalho a fim de pressionar sua antiga empregadora, acabando por seqüestrá-la,
juntamente com um grupo de crianças, além de dar um tiro acidental num
ex-colega de trabalho. O caso ganha proporção quando um repórter inescrupuloso
percebe que poderia manipular a situação em prol de picos de audiência. O
desfecho do filme é trágico e exemplifica a forma inescrupulosa como a
mídia trata fatos dessa natureza em prol
de audiência.
Tal como numa novela de horário
nobre, a advogada de Lindemberg parece ser a mais nova vilã do Brasil, culpada
por proferir inverdades e tecer ilações que não condizem com a verdade construída
pela mídia. Deverá ser achincalhada por alguns dias, até outro fato ganhar o
status de “espetáculo” e levar comoção a
opinião pública, concedendo a ela o papel de juiz e carrasco, sob a geração de picos de audiência conseguida.
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