domingo, fevereiro 05, 2012

Espaço, região e território: elementos basilares da geografia


Por Erick Schunig

A geografia se apresenta como um dos campos científicos mais versáteis em relação a sua área de atuação, oferecendo um importante cabedal para usos diversos que vão desde a análise epistemológica da relação entre o homem e a natureza até o fornecimento de subsídios para o planejamento ambiental.
Entretanto, há temas fundamentais que são pilares na discussão do conhecimento geográfico e que apontam caminhos importantes para entender o mundo atual e suas mudanças. Nesse sentido, há de que seja feita uma discussão sobre as diversas concepções que envolvem três elementos inerentes da geografia: espaço, região e território. É sobre esse tripé que iremos discorrer e que tentaremos fornecer subsídios para melhor entendimento sobre  como cada um se apresenta dentro das escolas de pensamento geográfico e quais as implicações envolvidas.

Geografia tradicional ou clássica
Para geografia tradicional, espaço pode ser apresentado através de uma simples definição como uma porção da superfície do nosso planeta, composta pela natureza e por todos elementos que a caracterizam (clima, relevo, vegetação, hidrografia, etc.), sob influência das ações humanas. Partindo dessa definição simplista, espaço pode ser visto através de uma ótica mais apurada, envolvendo as escolas de pensamento geográfico.
De acordo com Correa (1995), a geografia tradicional ou clássica tratava espaço de uma forma superficial, aparecendo em obras de geógrafos como Friederich Ratzel e Hartshorne. Paisagem e região não tinham uma abordagem mais sofisticada, limitando-se bastante a descrição. Ratzel desenvolve dois conceitos fundamentais envolvendo território e de espaço vital. O primeiro vincula-se à apropriação de uma porção do espaço por um determinado grupo, enquanto o segundo expressa às necessidades territoriais de uma sociedade em função de seu desenvolvimento tecnológico, do total de população e dos recursos naturais. A preservação e ampliação do espaço vital, constitui, na formulação de Ratzel, como a própria razão de ser do Estado.
O espaço na visão de Hartshorne é o espaço absoluto, um conjunto de pontos que tem existência em si, sendo independente de qualquer coisa. É um quadro de referência que não deriva da experiência, sendo apenas intuitivamente utilizado na experiência. Trata-se de uma visão kantiana, por sua vez influenciada por Newton, em que o espaço (e o tempo) associa-se a todas as dimensões da vida. Sob essa ótica o espaço é visto como um receptáculo que contém elementos.
Segundo Gomes (1995), para  essa escola de pensamento, o conceito de região surge da  ideia de que o ambiente tem um certo domínio sobre a orientação do desenvolvimento da sociedade. A partir da perspectiva possibilista, as regiões existem como unidades básicas do saber geográfico, não como unidades morfológica e fisicamente pré-constituídas, mas sim como resultado do trabalho humano  em determinado ambiente.
É forte a influência de concepções elaboradas por geógrafos alemães e franceses, onde a região pode preservar a unidade fundamental do campo da geografia, instituída sob o formato de discussão relação homem-meio. A região era vista como um conceito capaz de promover o encontro entre as ciências da natureza e as ciências humanas, o produto-síntese de uma reflexão verdadeiramente geográfica. Trabalha-se com a ideia de regiões homogêneas e regiões funcionais ou polarizadas, o que gerou uma série de críticas a esse pensamento.

O pensamento teorético-quantitativo
Na concepção da geografia teorético-quantitativa, outra escola de pensamento geográfico, o conceito de espaço sofre uma influência da visão epistemológica da ciência, baseada nas ciências naturais como a física. O conceito de paisagem é deixado de lado, enquanto o de região é reduzido ao resultado de um processo de classificação de unidade espaciais, segundo procedimentos de agrupamento e divisão lógica com base em técnicas estatísticas. Lugar e território não são conceitos significativos na geografia teorético-quantitativa.
O espaço é considerado sob duas formas que não são mutuamente excludentes: planície isotrópica e a sua representação matricial.
Críticos a esse pensamento consideram-na  uma visão limitada de espaço, pois, privilegia-se em excesso a distância, vista como variável independente; já as contradições, os agentes sociais, o tempo e as transformações são inexistentes ou relegada a um plano secundário.
A região é vista sob uma abordagem  tecnicista, onde a divisão passa a ser a palavra de ordem.  São estabelecidas regras e critérios  de classificação com o intuito de configurara espaços uniformes. A região é uma classe de área, fruto de uma classificação geral que divide o espaço segundo critério ou variáveis arbitrários que possuem justificativa no julgamento de sua relevância para uma certa explicação (GOMES,1995). São identificados dois tipos fundamentais de regiões: as regiões homogêneas e as regiões funcionais ou polarizadas.

A concepção da geografia crítica
Com base no pensamento marxista e originada  a partir dos anos 70, a Geografia Crítica entende espaço como o locus de reprodução das relações sócias (CORREA,1995). O espaço é entendido como espaço social, vivido, em estreita correlação com a prática social não deve ser visto como espaço absoluto, nem como produto da sociedade. Santos (apud CORREA, 1995) tem sua obra marcada pela forte presença dessa corrente de pensamento, onde o espaço é analisado através de quatro elemento; forma, função, processo e estrutura.
Santos (2001) é um dos maiores teóricos sobre a interferência do processo de globalização, observando a existência de  verticalidades (pontos interligados dentro de um território que formam um espaço de fluxo, fortemente influenciada por fatores externos) e horizontalidades (áreas de contiguidade que forma extensões contínuas).
Gomes (1995) ressalta que para essa corrente de pensamento, região passa a ser entendida a partir da perspectiva histórica dos processos sociais, produto do meio de produção e reprodução de toda vida social.

Geografia humanista e uma nova visão espacial
De acordo com Correa (1995), essa corrente de pensamento que tem base  nas filosofias do significado, especialmente a fenomenologia e o existencialismo e está assentada no subjetivismo, na intuição, nos sentimentos, na experiência, no simbolismo e na contingência, privilegiando o singular e não o particular ou o universal. A paisagem torna-se um conceito revalorizado, assim como a região, enquanto o conceito de território tem na geografia humanista uma de suas matrizes.
Correa (1995) afirma que existem vários tipos de espaços, um espaço pessoal, outro grupal, onde é vivida a experiência do outro e o espaço mítico-conceitual que extrapola para além da evidência sensorial e das necessidades imediatas e em direção a estruturas mais abstratas.
Em relação a região, Gomes (1995)  destaca que essa corrente trabalha com um novo conceito de região, vista como um quadro de referência fundamental na sociedade. A região ganha  uma espessura e define um código social comum que tem uma base territorial. Passa a ser vista como um produto real, construído dentro de um quadro de solidariedade territorial.

A discussão sobre o território
O debate sobre a definição de território envolve uma discussão referente a sua abrangência, limites e identidades. Souza (1995) trabalha o conceito de território referindo-se a escala nacional e em associação com o Estado como grande gestor, ressaltando que não deve ser reduzido  a associação com a figura do Estado.
Para Souza , a ocupação do território deve ser vista como algo gerador de raízes e identidade: um grupo não pode mais ser compreendido sem o seu território, no sentido de que a identidade sócio-cultural das pessoas estaria inarredavelmente ligada aos atributos do espaço concreto. Dessa forma, os limites do território também tornam-se flexíveis ante disputas e mudanças, na luta pela territorialidade. O autor também cita o papel do território como instrumento ideológico para esconder conflitos sócias dentre de um Estado.
A ideia de território também encaminha reflexões a respeito da influência do processo de globalização. Haesbaert (1995) traça uma abordagem sobre a questão do território, onde é percebida a existência de vastos espaços no mundo contemporâneo que exibem incrível nitidez referente a efeitos dessa “modernização arrasadora”.
De acordo com Haesbaert (1995), esses espaços são moldados sob a ótica de um modelo dominante em que muitos preferem considerar espaços sem história, sem identidade. Com a tecnologia e a velocidade, e transformados num ritmo alucinante, onde a paisagem é incorporada na mesma rede hierarquizada de fluxos alinhavada em escalas que vão muito além dos níveis local e regional.
Haesbaert (1995) chama de “nova desordem mundial”, aquilo que considera a produção de diversos níveis de desterritorialização. Fenômeno incorporado a globalização econômica, estimulada por redes tecnológicas mais sofisticadas, movimentos neoterritorialistas de (re)enraizamento, que muitas vezes promovem a (re)construção de identidades tradicionais e a exclusão socioeconômica e cultural mais violenta.
Sobre a desterritorialização, Santos (2001) tece alguns comentários sobre a ideia de que espaço e tempo foram contraídos graças a velocidade, o que considera um mito.
Na visão de Santos, a ideia de uma humanidade desterritorializada a partir do desaparecimento das fronteiras e de uma cidadania universal, cai por terra quando percebemos que as fronteiras mudaram de significação, mas nunca estiveram tão vivas. A existência das fronteiras, segundo ele, está pautada no fato de que  o próprio exercício das atividades globalizadas não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efetivas dentro de um território. Portanto, a humanidade desterritorializada seria apenas um mito.

Considerações finais de uma discussão inacabada
O artigo trouxe elementos para discutir a visão das diversas correntes geográficas envolvendo espaço e região, bem como as antigas e novas concepções sobre território. Há de ser considerada a dificuldade envolvendo a abordagem de fenômenos espaciais e a sua representação através da escala, instrumento matemático amplamente utilizado pela geografia e que trabalha com a ideia de apreensão da realidade, através da representação.
Outro aspecto importante e que merece atenção é o papel exercido pelas redes dentro da dinâmica territorial, onde estão implicadas  estratégias de circulação e de comunicação, e o papel do Estado como gestor dentro do território e o seu lugar na geopolítica mundial.
A discussão prossegue e as possibilidades ainda não foram esgotadas.



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