Para aqueles que desconhecem a
geografia como ciência, que seguramente vai além daquilo que é ensinado nas
escolas, pode-se dizer que a mesma apresenta diversos conceitos e subdivisões, que
muitas vezes não tão simples de entender.
De uma forma mais genérica,
podemos dizer que a geografia se divide em duas: humana e física. Esta última é
que nos interessa e que tecerei algumas
considerações, já que a mesma é uma das bases dos planejamentos ambientais e
ocupa lugar privilegiado nas discussões envolvendo a questão ambiental.
Para entender melhor sobre o tema
e toda concepção teórica que ele traz, teremos como base o livro Ecogeografia
do Brasil, do geógrafo Jurandyr Ross. Ross trabalha nesse livro com conceitos
ligados a concepção de ecossistema, que serve de base para o planejamento
ambiental.
Em sua abordagem, Ross tece
considerações a respeito da visão sistêmica que envolve o estudo da geografia
física. Essa visão deriva da Teoria Geral dos Sistemas, de Bertanlanffy, que pressupõe que na natureza as trocas de energia
e matéria se processam por meio das relações de equilíbrio dinâmico. Esse
equilíbrio, entretanto, é frequentemente alterado pelas intervenções do homem
nos diversos componentes da natureza, gerando um estado de desequilíbrio
temporário ou permanente.
Na década de 60, geógrafos russos
conceberam a Teoria dos Geossistemas, baseada na existência de geosferas e que
estão inter-relacionadas por fluxos de energia. Um conceito aplicado ao
planejamento do então Estado soviético, onde era preciso levar em conta as
múltiplas interações e transformações. Ross cita contribuições importantes de
geógrafos como Sotchava e Gerasimov. Entretanto, a teoria da escola russa é imprecisa em
relação a precisão espacial, já que trabalhava com o conceito de paisagens homogêneas.
A partir da contribuição de
geógrafos franceses como Tricart e Bertrand é que a teoria dos Geossistemas
ganha o formato atual. O trabalho de Jean Tricart (1965), com a sua
classificação ecodinâmica dos meios ambientes, já assinala o aparecimento da
teoria sistêmica na Geografia.
Tricart estabeleceu uma
classificação dinâmica para as unidades de paisagens identificadas: unidades
ecodinâmicas estáveis, unidades ecodinâmicas integradas e unidades ecodinâmicas
fortemente instáveis. Cada um desses níveis é caracterizado por estrutura
suportada pelas forças específicas. Pressupõem uma harmonia baseada na
interdependência que se estabelece entre elementos da natureza, da sociedade e
entre ambos.
Outro geógrafo francês, Georges
Bertrand otimiza o conceito elaborado pela escola geográfica russa, dando uma
conotação mais precisa, possibilitando a classificação do geossistema em função
da escala caracterizando como uma unidade, um nível taxônomico na categorização
da paisagem, dividida em: zona, domínio e região (unidades superiores),
geossistemas, geofaceis e geótopo (unidades inferiores), sendo o geossistema
proporcionado pela dinâmica entre o potencial ecológico, exploração biológica e
ação antrópica.
Ross também cita a
contribuição das escolas geográficas
provenientes da Austrália, com contribuição da escola dos Países Baixos, a
partir da concepção do conceito de Sistemas de Terras e Unidades de Terras.
Nesse sistema a escala também é fundamental, mas sob uma maior amplitude, onde
os Sistemas de Terras são determinados por elementos de caráter geomorfológico
e geográficos associados, formando um determinado agrupamento ou conjunto de
unidades de terras. Já unidades de terras correspondem à divisão ou partes menores
dos sistemas de terras. Para a delimitação, utiliza-se principalmente das
formas de relevo, constituídas de sítios ou lugares ou facetas de terras ou
site.
E o Brasil?
Nosso país é fortemente
influenciado pela escola geográfica francesa e, como tal, os estudos de Tricart
e Bertrand.
O desenvolvimento da geografia
física aplicada no Brasil deu-se a partir da década de 1980, com a lei
6938/1981, institui a obrigatoriedade dos EIAs e RIMAs. A partir daí observa-se
um desenvolvimento e crescimento substancial da geomorfologia.
A partir do surgimento do
conceito de desenvolvimento sustentável, observa-se uma redefinição dos rumos
da abordagem ambientalista e de uma visão absolutamente reservacionista para
uma abertura mais humanista.
Ross lembra que, para o
desenvolvimento da geografia aplicada, é
necessária a compreensão integrada da dinâmica socioeconômica sob a perspectiva
da dinâmica dos processos de ocupação e da relações econômicas e sociais.
Partindo da concepção sistêmica,
o autor afirma que as intervenções humanas não modificam as leis da natureza,
apenas interferem nos fluxos de energia e matéria, alterando suas intensidades,
forçando-a a encontrar novos pontos de equilíbrio funcional.
É essa visão sistema que é
amplamente difundida – e muitas vezes não alcançada – nos trabalhas de
planejamento e estudos ambientais.
No entanto, é bom ressaltar que
graças a esses estudos, a visão desenvolvimentista que assolou nosso país nas
últimas décadas do século XX, onde crescer era sinônimo de desenvolvimento. Nas
palavras de Ross, desenvolvimento econômico deve significar crescimento
econômico com aprimoramento tecnológico,
melhoramento social e apropriação dos recursos naturais dentro de uma
perspectiva conservacionista e preservacionista dos bens da natureza, com a
preocupação de diminuir os impactos ambientais e possibilitar uma convivência
mais harmoniosa entre a sociedade e a natureza.
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