Wednesday, January 11, 2012

A geografia física e as taxonomias do planeta Terra


Para aqueles que desconhecem a geografia como ciência, que seguramente vai além daquilo que é ensinado nas escolas, pode-se dizer que a mesma apresenta diversos conceitos e subdivisões, que muitas vezes não tão simples de entender.
De uma forma mais genérica, podemos dizer que a geografia se divide em duas: humana e física. Esta última é que  nos interessa e que tecerei algumas considerações, já que a mesma é uma das bases dos planejamentos ambientais e ocupa lugar privilegiado nas discussões envolvendo a questão ambiental.
Para entender melhor sobre o tema e toda concepção teórica que ele traz, teremos como base o livro Ecogeografia do Brasil, do geógrafo Jurandyr Ross. Ross trabalha nesse livro com conceitos ligados a concepção de ecossistema, que serve de base para o planejamento ambiental.
Em sua abordagem, Ross tece considerações a respeito da visão sistêmica que envolve o estudo da geografia física. Essa visão deriva da Teoria Geral dos Sistemas, de Bertanlanffy, que  pressupõe que na natureza as trocas de energia e matéria se processam por meio das relações de equilíbrio dinâmico. Esse equilíbrio, entretanto, é frequentemente alterado pelas intervenções do homem nos diversos componentes da natureza, gerando um estado de desequilíbrio temporário ou permanente.
Na década de 60, geógrafos russos conceberam a Teoria dos Geossistemas, baseada na existência de geosferas e que estão inter-relacionadas por fluxos de energia. Um conceito aplicado ao planejamento do então Estado soviético, onde era preciso levar em conta as múltiplas interações e transformações. Ross cita contribuições importantes de geógrafos como Sotchava e Gerasimov. Entretanto,  a teoria da escola russa é imprecisa em relação a precisão espacial, já que trabalhava com o conceito de paisagens homogêneas.
A partir da contribuição de geógrafos franceses como Tricart e Bertrand é que a teoria dos Geossistemas ganha o formato atual. O trabalho de Jean Tricart (1965), com a sua classificação ecodinâmica dos meios ambientes, já assinala o aparecimento da teoria sistêmica na Geografia.
Tricart estabeleceu uma classificação dinâmica para as unidades de paisagens identificadas: unidades ecodinâmicas estáveis, unidades ecodinâmicas integradas e unidades ecodinâmicas fortemente instáveis. Cada um desses níveis é caracterizado por estrutura suportada pelas forças específicas. Pressupõem uma harmonia baseada na interdependência que se estabelece entre elementos da natureza, da sociedade e entre ambos.
Outro geógrafo francês, Georges Bertrand otimiza o conceito elaborado pela escola geográfica russa, dando uma conotação mais precisa, possibilitando a classificação do geossistema em função da escala caracterizando como uma unidade, um nível taxônomico na categorização da paisagem, dividida em: zona, domínio e região (unidades superiores), geossistemas, geofaceis e geótopo (unidades inferiores), sendo o geossistema proporcionado pela dinâmica entre o potencial ecológico, exploração biológica e ação antrópica.
Ross também cita a contribuição  das escolas geográficas provenientes da Austrália, com contribuição da escola dos Países Baixos, a partir da concepção do conceito de Sistemas de Terras e Unidades de Terras. Nesse sistema a escala também é fundamental, mas sob uma maior amplitude, onde os Sistemas de Terras são determinados por elementos de caráter geomorfológico e geográficos associados, formando um determinado agrupamento ou conjunto de unidades de terras. Já unidades de terras correspondem à divisão ou partes menores dos sistemas de terras. Para a delimitação, utiliza-se principalmente das formas de relevo, constituídas de sítios ou lugares ou facetas de terras ou site.

E o Brasil?
Nosso país é fortemente influenciado pela escola geográfica francesa e, como tal, os estudos de Tricart e Bertrand.
O desenvolvimento da geografia física aplicada no Brasil deu-se a partir da década de 1980, com a lei 6938/1981, institui a obrigatoriedade dos EIAs e RIMAs. A partir daí observa-se um desenvolvimento e crescimento substancial da geomorfologia.
A partir do surgimento do conceito de desenvolvimento sustentável, observa-se uma redefinição dos rumos da abordagem ambientalista e de uma visão absolutamente reservacionista para uma abertura mais humanista.
Ross lembra que, para o desenvolvimento da geografia  aplicada, é necessária a compreensão integrada da dinâmica socioeconômica sob a perspectiva da dinâmica dos processos de ocupação e da relações econômicas e sociais.
Partindo da concepção sistêmica, o autor afirma que as intervenções humanas não modificam as leis da natureza, apenas interferem nos fluxos de energia e matéria, alterando suas intensidades, forçando-a a encontrar novos pontos de equilíbrio funcional.
É essa visão sistema que é amplamente difundida – e muitas vezes não alcançada – nos trabalhas de planejamento e estudos ambientais.
No entanto, é bom ressaltar que graças a esses estudos, a visão desenvolvimentista que assolou nosso país nas últimas décadas do século XX, onde crescer era sinônimo de desenvolvimento. Nas palavras de Ross, desenvolvimento econômico deve significar crescimento econômico com aprimoramento  tecnológico, melhoramento social e apropriação dos recursos naturais dentro de uma perspectiva conservacionista e preservacionista dos bens da natureza, com a preocupação de diminuir os impactos ambientais e possibilitar uma convivência mais harmoniosa entre a sociedade e a natureza.

0 comentários: