O texto abaixo tem como referência o livro da bióloga Rozely Ferreira dos Santos - o qual indico como livro de cabeceira para aqueles que estudam a temática ambiental. Fiz com o intuito de estudar para prova de mestrado e parece que deu certo.
Considerações sobre o paradigma do desenvolvimento sustentável
Por Erick Schunig
No cerne de debates acalorados, o
termo “desenvolvimento sustentável” praticamente virou palavra de ordem quando o assunto é discussão
sobre meio ambiente. Faz referência a exploração de recursos em consonância com
a preservação da natureza e desenvolvimento humano. Mas afinal, no mundo em que vivemos é possível ter
desenvolvimento sustentável? A pergunta é incômoda, mas deve ser feita, sob a
responsabilidade que paira em todos os seres humanos no tocante a sobrevivência
em nosso planeta.
O início
A discussão sobre a questão
ambiental é relativamente nova, tendo ocupado lugar de destaque em fóruns como
a conferências como a do clube de Roma (1968) e Estocolmo (1972).
Eventos desse porte deram a
tônica das bases envolvendo planejamento ambiental. Em seu livro “Planejamento Ambiental – teoria
e prática”, a bióloga Rozely Ferreira dos Santos lembra que nos pós-guerra,
surge nos EUA, uma visão diferenciada de planejamento ambiental, a partir da
exigência de estudos de impactos
ambientais, contanto com a participação das universidades e criação de um marco
legal.
Na década de 60, ganha destaque
no EUA a ideia de não haver um modelo único de desenvolvimento, sendo melhor
aquele que a própria sociedade decide, com satisfação de suas necessidades
segundo sua representatividade social.
Surgem modelos alternativos de desenvolvimento, considerando benefícios desvinculados do aspecto puramente
econômico, envolvendo qualidade de vida, conforto, higiene, educação, bem como
características negativas do chamado mundo desenvolvido, como poluição e
degradação ambiental.
O marco das preocupações do homem moderno com o meio ambiente deu-se
em 1968, com o clube de Roma, onde foram incorporadas questões sociais,
políticas, ecológicas e econômicas com uso racional dos recursos. A autora cita
o relatório chamado “Limites de
Crescimento” e o NEPA (elaborado pelos EUA) como instrumentos decisivos para
pressionar os governos da época e iniciar a configuração de um marco jurídico
para área ambiental.
No fim dos anos 70 retomaram-se
os fundamentos de decisão multicriterial desenvolvidos para planejamentos de
recursos hídricos na década de 1930. No final dos anos 70 e início da década de
80, a conservação e a preservação dos recursos naturais e o papel do homem
integrado ao meio passaram a ter função muito importante na discussão da
qualidade de vida da população. Nesse período, os conceitos sobre planejamento,
influenciados pelos estudos de impacto,
sofreram uma reformulação, na qual a questão ambiental foi amplamente
contemplada.
Rozely lembra que a questão ambiental tem sua inserção de
fato entre os anos 1950 e 1990, por meio de propostas de gerenciamento de
recursos naturais, cuja preocupações iniciais eram essencialmente de controle
ambiental, elaborado através de regulamentos legais, mas não de mudança de
postura diante da utilização dos recursos naturais.
Para a geografa Bertha Becker, a
concepção de desenvolvimento sustentável revela uma nova feição da geopolítica
mundial. Em sua abordagem, a autora discorre sobre a proposta de cooperação
internacional com base em nova relação sociedade-natureza, onde o tema
“desenvolvimento sustentável”, exposto no Relatório Bruntland (1987), apresenta
uma feição específica da Geopolítica contemporânea, onde revela uma revalorização da dimensão política do
espaço e dos conflitos a ela inerentes em várias escalas geográficas.
Para Becker, essa concepção é uma
tentativa de ajustar o sistema capitalista por meio da conciliação das
tendências da lógica da acumulação com as da lógica cultural, particularmente
os movimentos ambientalistas. Conciliação, contudo, que se torna instrumento de
pressão nas relações Norte-Sul, bem como de imposição de uso dos territórios
nacionais.
Assume-se então uma postura onde
o desenvolvimento sustentável representa um mecanismo de regulação do uso do
território que tenta ordenar a desordem
global, constituindo-se num instrumento político.
A ecologia surge como novo
parâmetro geopolítico. Sob o novo padrão técnico-econômico e os movimentos
políticos são indicativos da desordem global, as relações Norte-Sul atestam a
tentativa de manter a ordem, e a ecologia constitui um vetor desse movimento.
A complexidade da questão
ambiental envolve não apenas a consciência ecológica (corresponde à preocupação
legítima com a crise ambiental), como também a utopia ecológica (fortalecimento
do vetor ecológico pesa igualmente o fracasso tanto do progresso capitalista
como do socialismo real) e a ideologia ecológica (redução da velocidade do
desenvolvimento no momento em que o
mundo gira justamente de acordo com a lógica da velocidade acelerada e a
imposição de um novo estilo de desenvolvimento sustentável, cujas bases não
estão claramente definidas).
Sob a proposta de harmonia
espacial e equidade temporal do discurso, a sustentabilidade reside na busca de
uma soma positiva, a sinergia, através de planejamento de processos produtivos
miméticos aos ecossistemas, em estreita interconexão, bem como na reutilização
que traduz a noção de movimento perene. São identificados três princípios
básicos sob esse discurso:
Eficácia – no uso de recursos através da utilização da
informação e de novas tecnologias em atividades e produtos capazes de consumir
menos matérias-primas;
Diferença – professa a necessária
inovação contínua pela diversidade de mercados e recursos, bem como por
condições sociais e políticas que potencializam os recursos locais, gerando
valorização máxima e seletiva das potencialidades autóctones em recursos naturais
e capital humano;
Descentralização - implica não apenas na distribuição territorial da
decisão, mas em uma nova forma de planejamento do governo.
O meio
Segundo Rozely Ferreira dos
Santos a estrutura e os procedimentos em um planejamento serão
definidos a partir de um ideário, norteador de todo o seu processo, que
levará os conceitos e premissas de
desenvolvimentos para um certo espaço,
num determinado tempo. A autora aborda a importância do ideário semeado em
1950, através do conceito de desenvolvimento sustentável, onde havia clara
preocupação com a degradação ambiental,
com a condição social dos desprivilegiados, com a falta de saneamento e com
consumo indiscriminado, construindo assim a ideia de ecodesenvolvimento,
presente em conferências das nações Unidas
e na Rio-92.
Destaque para criação de cinco
documentos: Convenção sobre mudanças climáticas, Convenção sobre diversidade
biológica, Princípios para manejo e conservação de florestas, Declaração do Rio
e Agenda 21.
No Brasil, só a partir de 1981, com a Política Nacional do Meio
Ambiente, é que foi elaborada uma carta
de intensões em relação a conservação do meio. As primeiras medidas visavam a
proteção dos recursos hídricos.
Pressões de bancos internacionais
provocaram mudança no comportamento governamental, exigindo estudos de impacto
ambiental para financiamento de projetos, além de pressões oriundas de
sociedades estrangeiras ambientalistas. A partir da década de 80 é que o
planejamento ambiental foi incorporado
pelos órgãos governamentais. Metodologicamente estes planejamentos expressavam
seu histórico, ou seja, a conjunção entre conceitos e estruturas de
planejamento urbano, estudos de impacto ambiental e plano de bacia
hidrográfica.
Em 1986 foi aprovada Resolução
001 do Conama que criou a obrigatoriedade
de estudos de impacto ambiental no Brasil para uma vasta gama de
atividades humanas. Secretarias de meio
ambiente desenvolveram ferramentas de
planejamento; diagnósticos de APAs.
Na década de 1990, o
planejamento ambiental foi incorporado
aos planos diretores municipais.
O fim
Para alcançar o pretendido
desenvolvimento sustentável é vital que o processo de planejamento seja um meio sistemático de determinar em que
você está, onde deseja chegar e qual o melhor caminho para chegar lá. É um direcionador de quantidade, qualidade e da
velocidade e natureza das trocas.
Segundo Rozely Ferreira dos
Santos, o planejamento ambiental é um processo
contínuo que envolve a coleta, organização e análise sistematizadas das informações, por meio de procedimentos e
métodos, para chegar a decisões ou a escolhas acerca das melhores alternativas
para o aproveitamento dos recursos disponíveis. Implica também nas previsões,
estimativas futuras e que envolvem uma série de variáveis.
Para autora, deve ser feito um
questionamento sobre o adjetivo ambiental e diferenciação em relação a
gerenciamento ambiental. Deve-se analisar o processo histórico em que o
adjetivo se estabeleceu em razão do aumento dramático da competição por terras,
água, recursos energéticos e biológicos que gerou a necessidade de organizar o
uso da terra.
O planejamento ambiental tem como
estratégia estabelecer ações dentro de contextos e não isoladamente, resultando
maior aproveitamento do espaço físico e dos recursos naturais, economia de
energia, alocação e priorização de recursos para as necessidades mais prementes
e previsão de situações.
Por fim, Rozely ressalta que em
muitos planejamentos, o resultado é somente uma soma, como a geração de uma
metadisciplina, mas não uma interação de fato. Não apresentam de forma
eficiente a realidade, nem atingem o ideário a que se propõem. O que nos leva a
pensar como e de que forma está sendo utilizado o termo desenvolvimento
sustentável pelos gestores.
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