segunda-feira, dezembro 19, 2011

Costelão do final do mundo

Depois de um ano tenso e com a perspectiva do mundo acabar em 2012, resolvemos realizar a XI edição do Costelão de Final de ano. Com a presença de quase todos os notórios ébrios,conseguimos realizar aquele evento tradicional, cuja marca é a esculhambação organizada. Em 2012, se o nosso fígado permitir, estaremos lá de novo!

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Considerações sobre a perversidade da globalização

Durante esses últimos dias, estive envolvido num processo de seleção de mestrado  e para  melhor o estudo envolvendo a referência bibliográfica do processo seletivo, resolvi escrever alguns artigos sobre os livros. Começarei a publica-los aqui no blog, pois acho que não ficaram tão ruins e dá uma ideia sobre as discussões envolvendo os temas da prova. O primeiro é sobre o livro "Por uma outra Globalização', do geógrafo Milton Santos.


Fábulas e perversões sob os auspícios da globalização

Como entender e sobreviver ao mundo do século XXI, em meio a um processo de globalização excludente e cercado de contradições? O livro “Por uma outra Globalização”, do geógrafo Milton Santos, fornece algumas pistas e apresenta alguns caminhos que ajudam na compreensão do mundo e da realidade que vivemos.
Santos percebe o mundo de hoje a partir de um mundo de fabulações, pautado pela construção de um discurso único, cercado de desigualdades alicerçado no poder do dinheiro e na ação das empresas. O ser humano passa a ser entorpecido pelo discurso do consumo, inserido num mundo de fabulações, de uma globalização perversa e de uma perspectiva de outra globalização.
Para o autor, a fabulação reside na construção de ideias que na prática não se configuram ou se restringem a um determinado segmento. Ideias como a de que vivemos em direção a uma aldeia global e da difusão ampla das informações. Santos desconstrói esse paradigma alertando para o poder da máquina ideológica que propaga um mundo onde  os espaços são contraídos e todos podem viajar. O poder avassalador do mercado passa a ser o imperativo desses tempos modernos, onde a exclusão é a palavra de ordem e uma minoria consegue usufruir das benesses de “novos tempos modernos”.
Chama atenção a crítica feita pelo autor sobre o papel dos meios de comunicação como gestores de informações superficiais e players na construção de mundo de fábulas, onde a exclusão é a marca. A ideia de aldeia global cai por terra na medida em que percebemos a ação avassaladora do mercado no aprofundamento das diferenças locais.
O autor nomeia a globalização como uma “fábrica de perversidades”, onde desemprego crescente, pobreza, perda da qualidade de vida, salários baixos, fome, desabrigo, novas enfermidades (e ressurgimento de velhas), são as características desse processo, onde alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção.
Ao mesmo tempo, Santos ressalta a possibilidade de construção de um novo mundo, baseado na unicidade das técnicas, na convergência dos momentos e no conhecimento do planeta, onde uma nova narrativa pode ser elaborada, visando se contrapor ao discurso único imposto pelas grandes corporações.

A globalização e suas engrenagens
Aquilo que o historiador Eric Hobsbawn classificou (talvez jocosamente) de “breve século XX”, devido as intensidade dos acontecimentos e das mudanças, Milton Santos, numa narrativa  excepcional, disseca  o dínamo que  impulsiona esses acontecimentos e as suas consequência no século XXI.
Partindo da ideia de que a globalização é a internacionalização do capitalismo, Santos discorre sobre  o papel das técnicas nesse processo. Graças aos avanços da ciência, produziu-se um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária. Sistema que assegura a emergência do mercado global.
Para explicar esse processo de globalização, o autor aponta como fatores primordiais: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representado pela mais-valia globalizada.
Na ótica de Santos, a palavra “crise” ganha um novo contexto no sistema capitalista, onde o que antes era cíclico passa a ser estrutural, estruturado pela associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz, desse modo, à aceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo "pensamento único".
Sob esse enfoque, o raciocínio de Santos é quase profético, na medida em que observamos países como a Grécia, Portugal, Itália, dentre tantos, serem vitimados  por crises estruturais dentro daquilo que conhecemos como o mais antigo e estruturado bloco econômico existente. Nas palavras de Milton Santos, as soluções para essas crises são inócuas, já que os problemas estruturais não são atacados devido a interesses do mercado. Os governos se tornaram reféns e as decisões são submetidas a apreciação de instituições financeiras internacionais (verdadeiros difusores dessa globalização). Nas palavras do autor “a única crise que os responsáveis desejam afastar é a crise financeira e não qualquer outra”.

Perversidade líquida
O  mundo torna-se unificado em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada. Esta, entretanto, impõe-se à maior parte da humanidade como uma globalização perversa.
A perversidade se apresenta através da utilização das técnicas de informação em prol dos interesses de alguns atores e a manipulação dessas informações.  Se o cientista político Antonio Gramsci definia os meios de comunicação como aparelhos ideológicos do Estado, Santos vai mais longe. Ele vaticina que o que é transmitido à maioria da humanidade é uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde, desvelando o que muitas vezes se esconde sob o manto da tão propalada liberdade de expressão.
Outro mito desconstruído por Santos é o de que o espaço e o tempo são contraídos graças aos prodígios da velocidade. Virtude que revelaria  uma humanidade desterritorializada, sem  fronteiras e existência de uma cidadania universal. As fronteiras mudaram de significação, mas nunca estiveram tão vivas, na medida em que o próprio exercício das atividades globalizadas não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efetivas dentro de um território.
Neste mundo globalizado dissecado por Santos, a competitividade, o consumo, a confusão dos espíritos constituem baluartes do presente estado de coisas. A competitividade comanda nossas formas de ação e o consumo comanda nossas formas de inação.
Outro ponto dessa perversidade é o fato de que a ciência passa a produzir aquilo que interessa ao mercado, e não à humanidade em geral e as informações passam a se concentrar nas mãos de um número limitado de firmas.
A política agora passa a ser feita no mercado, só que este mercado global não existe como ator, mas como uma ideologia, um símbolo. Os atores são as empresas globais, que não têm preocupações éticas, nem finalísticas.

Por onde transitam dinheiro e fragmentação
No nosso mundo globalizado, os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade planetária e o movimento particular de cada fração, regional ou local, da sociedade nacional, o que origina  movimentos são paralelos a um processo de fragmentação que rouba às coletividades o comando do seu destino.
O dinheiro usurpa em seu favor as perspectivas de fluidez do território, buscando conformar sob seu comando as outras atividades. Por meio da regulação, a compartimentação dos territórios, na escala nacional e internacional, permite que sejam neutralizadas diferenças e mesmo as oposições sejam pacificadas, mediante um processo político que se renova, adaptando-se às realidades emergentes para também renovar, desse modo, a solidariedade.
Ao mesmo tempo percebe-se a competição entre entes federativos em busca desse dinheiro, que na maioria das vezes, sob a direção de técnicas disponíveis, é fluido e praticamente abstrato.

Vertigens provocadas pelas verticalidades e horizontalidades
Milton Santos é um dos maiores teóricos do espaço geográfico e não é exagero dizer que ele colocou a geografia brasileira no mesmo patamar das escolas francesas e alemã. A sofisticação dos conceitos teóricos elaborados por ele traz a tona a discussão envolvendo o espaço e toda a dinâmica  que o cerca.
Dentro dessa dinâmica, Santos tece considerações sobre as verticalidades e horizontalidades que integram o espaço geográfico, bem como a ação de empresas e do Estado se constituem peças fundamentais na engrenagem do processo de  globalização.
Entende-se por verticalidades como um conjunto de pontos formando um espaço de fluxos. Seria, na realidade, um subsistema dentro da totalidade-espaço, já que para os efeitos dos respectivos atores o que conta é, sobretudo, esse conjunto de pontos adequados às tarefas produtivas hegemônicas, características das atividades econômicas que comandam este período histórico.
Nesses pontos do espaço de fluxos, as macroempresas acabam por ganhar um papel de regulação do conjunto do espaço, além da ação explícita ou dissimulada do Estado, em todos os seus níveis territoriais. Regulação frequentemente subordinada porque, em grande número de casos, destinada a favorecer os atores hegemônicos.
No que tange as horizontalidades, Santos as define como zonas da contiguidade que formam extensões contínuas.
Nesse espaço, a ação atual do Estado, além de suas funções igualmente banais, é limitada. Na verdade, mudadas as condições políticas, é nesse espaço banal que o poder público encontraria as melhores condições para sua intervenção. O fato de que o Estado se preocupe sobretudo com o desempenho das macroempresas, às quais oferece regras de natureza geral que desconhecem particularidades criadas a partir do meio geográfico, leva à ampliação das verticalidades e, paralelamente, permite o aprofundamento da personalidade das horizontalidades.

Até onde vai a perversidade da globalização?
Santos fornece algumas pistas  dos caminhos que a humanidade pode percorrer a fim de reverter o processo de perversidade causado pela globalização. Ele é enfático ao afirmar que a vida cotidiana também revela a impossibilidade de fruição das vantagens do chamado tempo real para a maioria da humanidade. A promessa de que as técnicas contemporâneas pudessem melhorar a existência de todos caem por terra e o que se observa é a expansão acelerada do reino da escassez, atingindo as classes médias e criando mais pobres.
Segundo Milton Santos, o momento atual da história do mundo parece indicar a emergência de numerosas variáveis ascendentes cuja existência é sistêmica. Isso, exatamente, permite pensar que se estão produzindo as condições de realização de uma nova história.
Entre os indícios está o fato de que  o projeto racional começa a mostrar suas limitações e uma boa parcela da humanidade, por desinteresse ou incapacidade, não é mais capaz de obedecer a leis, normas, regras, mandamentos, costumes derivados dessa racionalidade hegemônica.
O autor também aponta para o fato de que o nosso tempo consagra a multiplicação das fontes de escassez, seja pelo número avassalador dos objetos presentes no mercado, seja pelo chamado incessante ao consumo. Consumo que cada vez mais dá mostras de que não é para todos.
Outro fator apontado como diferencial é a evolução de uma nova significação da cultura popular, tornada capaz de rivalizar com a cultura de massas. Uma cultura popular capaz de descontruir os símbolos e a estética da cultura de massas existente, produtos da cultura popular, e portadora da verdade da existência e reveladores do próprio movimento da sociedade.
O resgate da significação da cidadania é outra pista apontada por Santos que coloca os países subdesenvolvidos como artífices e protagonistas de reconstrução desse conceito.
Por fim, Milton Santos  fala da importância da obtenção de uma visão sistêmica, com possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e de localizá-los como um todo, mostrando sua interdependência. A partir daí, a discussão mostra que a história não acabou e que o homem, e não às técnicas e empresas, precisa ocupar o lugar central dentro das discussões  em nosso planeta.


Final de ano intenso

fim de ano chegando, finalmente, e depois de todos esses dias finalmente consigo começar a respirar. Mas os objetivos foram alcançado e estou de volta a vida acadêmica.