A lamentável reportagem da Revista Veja sobre a morte de Glauco
Beatriz Caiuby Labate*
Lamentável a reportagem “Alucinação Assassina”, da Revista Veja (ed. 2157, de 24/03/2010, disponível em: http://veja.abril.com.br/240310/alucinacao-assassina-p-066.shtml) sobre a morte do cartunista Glauco. A revista não faz cerimônia em aproveitar o infortúnio para retomar a sua linha editorial adotada há mais de duas décadas, que visa ridicularizar o uso da ayahuasca e proibir o seu consumo em nosso país. Eis os equívocos:
1. A Comissão Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas afirma que a ayahuasca não pode ser entendida como substância listada pela Convenção de 1971 da ONU;
2. O Brasil é signatário da Convenção da ONU, que em seu artigo 32 reconhece o direito de uso religioso de determinadas substâncias em contextos religiosos e tradicionais;
3. A lei de drogas (11.343), de 23 de agosto de 2006, também prevê que determinadas substâncias utilizadas em contextos religiosos sejam excluídas das listas de substâncias proscritas;
4. O uso ritual e religioso da ayahuasca é reconhecido em vários países do mundo, como Estados Unidos, Holanda, Canadá e outros;
5. Até o momento não há laudo médico que indique que Cadu- o assassino de Glauco- seja esquizofrénico. Recordemo-nos que no começo da cobertura sobre o caso, os familiares de Cadu não sugeriram isto;
6. Poder-se-ia, no máximo, sugerir que um quadro de graves problemas psiquiátricos (casos de esquizofrenia na família, família desestruturada e uso abusivo de drogas) eventualmente teria sido agravado pelo consumo da ayahuasca. Mesmo assim, trata-se de especulação, uma vez que não se conhece ao certo os detalhes sobre a vida do assassino e sua relação com o Santo Daime;
7. Não há evidências que Cadu não tenha sido afastado da igreja Céu de Maria, além das declarações do pai;
8. São feitas acusações a uma pessoa morta (Glauco), e não aparece a versão dos integrantes do Céu de Maria sobre os fatos;
9. Não há reflexão crítica sobre a estratégia de defesa do acusado, declarada explicitamente pelo advogado de que seria “culpabilizar” o Daime;
10. Não foi feita nenhuma pesquisa para que se afirme que “em apenas em algumas igrejas se pergunta ao interessado se ele tem problemas psíquicos”;
11. O Céu de Maria não possui 11 mil adeptos e sim no máximo duas ou três centenas;
12. A Associação Brasileira de Psiquiatria emitiu um parecer sobre o uso da ayahuasca, e não se “manifestou contra a liberação do chá”;
13. Não existe fundamento para se afirmar que os usos contemporâneos da ayahuasca sejam "para ficar viajandão";
14. O texto reifica estereótipos culturais bastante negativos ao se referir à ayahuasca como “alucinógeno” e ao movimento religioso como “seita”;
15. É falta de respeito e preconceito afirmar que os grupos ayahuasqueiros são reuniões de pessoas para “consumir regularmente DMT”. A ayahuasca neste contexto é um sacramento. As religiões são bona fide, e estão ligadas à história da Amazônia. São reconhecidas pelo governo brasileiro desde meados da década de 1980.
A Veja, assim como boa parte da mídia, culpabiliza levianamente o consumo da ayahuasca pelo crime, e deixa de discutir os reais problemas levantados por este caso, como o do tráfico de drogas e tráfico de armas no Brasil, a violência urbana, a falta de atendimento para dependentes de drogas e os desafios associados ao tratamento de doenças psiquiátricas.
No âmbito da discussão sobre o uso da ayahuasca, a morte de Glauco e Raoni certamente exige uma reflexão – o que é saudável. Paradoxalmente, é possível que surjam, a partir de agora, mais verbas para pesquisar este importante fenômeno.
Este episódio deve ser e será criticamente incorporado ao contínuo processo de regulamentação destas religiões nos últimos 25 anos. Mas a discussão deve respeitar a liberdade religiosa e o direito à diversidade cultural, ficar longe das disputas religiosas, do jogo de acusações, e dos discursos demonizantes que frequentemente pautam o debate público sobre as drogas.
* é antropóloga (http://bialabate.net), Pesquisadora Associada do Instituto de Psicologia Médica da Universidade de Heidelberg, na Alemanha
Fonte: FNDC
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