quarta-feira, outubro 21, 2009

Notícias que não vão sair nos jornais

Pesquisa mostra que Rede Globo mascarou com estratégias técnicas realidade do movimento grevista da década de 70

Por Danielle Veras

Imagens e sons associavam grevistas à rebeldia, ao perigo e à desordem

Com o intuito de obter o grau de Mestre em História, em 1995, Sônia Maria de Almeida Ignatiuk Wanderley apresentou à banca da Universidade Federal Fluminense (UFF) a dissertação intitulada A Construção do Silêncio: A Rede Globo nos Projetos de Controle Social e Cidadania (1970 / 1980). Tendo por base a análise de diversas reportagens, a autora procurou estabelecer um paralelo entre o nascimento da Rede Globo de Televisão, com sua rápida ascensão à liderança da audiência, e o “projeto de modernização conservadora e de integração nacional” idealizado em plena ditadura militar.

Como analisar a questão do poder nas sociedades atuais sem levar em consideração o chamado quarto poder? – interroga a autora, para em seguida mostrar que a televisão foi o meio elegido pelas forças do golpe de 1964 como o mais eficiente para “fazer chegar às massas o modelo de sociedade e de cidadão baseado na modernização autoritária, associado aos interesses do capitalismo internacional, construído a partir de uma visão de integração nacional puramente geopolítica e tendo no consumo sua base de sustentação”.

Sônia considera que, dentre todas as emissoras existentes na época, a Rede Globo foi a escolhida para representar a euforia típica dos anos 70, em tempos de “milagre econômico”. Segundo ela, essa opção pode ser facilmente justificada: “nascida da modernização autoritária, a emissora foi a primeira a responder às especificidades de uma verdadeira rede nacional, correspondendo às iniciativas infra-estruturais oferecidas pelo Estado e atendendo ao projeto que os governos militares propuseram para o país”.

Uma das principais preocupações da pesquisa, segundo o texto da dissertação, foi escolher uma linguagem que melhor representasse seus objetivos. Depois de muitas considerações, o jornalismo revelou-se a melhor das opções. “Tanto do ponto de vista técnico quanto do conteúdo, esta é a linguagem televisiva que mais capacidade possui de produzir simulacros do real como se fossem realidade objetiva, na medida em que a noticia é trabalhada como a representação da realidade, como se fosse a construção da história do cotidiano”.

Para fundamentar a análise, foram utilizadas basicamente notícias divulgadas pelo então recém criado Jornal Nacional. Sônia enfatiza no texto que, em 1971, apenas dois anos depois de seu surgimento, o telejornal transformou-se na principal fonte de informação de expressiva parcela da população, criando e modificando hábitos, atitudes e ideais de vida. “Deixava de ser um programa-sanduíche, ganhava vida própria e uma audiência fiel que consolidou sua importância econômica para a Rede Globo”. Com isso, segundo ela, tornou-se uma reconhecida fonte de recursos publicitários, a maior que a emissora possuía, momento em que a linguagem e os interesses mercadológicos passaram a exercer uma poderosa influência nas redações. “Por trás das notícias, encontramos determinantes econômico-políticas que irão influenciar a emissão e também a recepção da informação”, diz.

A temática da dissertação recaiu sobre as reportagens veiculadas pelo Jornal Nacional relativas às greves de trabalhadores, “pela sua importância no cenário nacional a partir de 1978. Neste ano, abre-se um ciclo de movimentos grevistas sem precedentes no Brasil, anunciando a necessidade de mudanças, de modo que se vencesse a profunda crise econômico-social na qual o país estava mergulhado”.

A autora explica que a possibilidade de radicalização dos metalúrgicos e dos bóias-frias colocou esses dois grupos como alvos das principais notícias. Ela analisou 194 reportagens sobre os movimentos grevistas de metalúrgicos e 53 matérias sobre movimentos de trabalhadores rurais, entre 1979 e 1989. Através dos dados levantados, Sônia procura abordar claramente a posição da Rede Globo quanto aos movimentos grevistas e a forma como seus desdobramentos foram retratados, sobretudo por meio da televisão. De acordo com o texto do trabalho, chegou à conclusão de que novos significados haviam sido criados para as greves. “A Rede Globo utiliza todo seu aparato técnico-discursivo para descaracterizar a greve como resultante de conflitos sociais. Na verdade, precisa-se de uma versão que despolitize os movimentos, respondendo, porém, ao crescente desejo da sociedade por informações”.

Ela chama atenção ainda para o texto do noticiário, a princípio assumidamente neutro, mas que viria imbuído de ideologia, alterando e moldando o conteúdo a ser transmitido a milhões de pessoas. Por isso, para muitos, devido à imagem que a Rede Globo almejava mostrar, as greves não passavam de transtornos à ordem pré-estabelecida, à qual todos estavam habituados. “A rua, a reunião pública e mesmo o sindicato parecem espaços dos outros, nunca são valorizados pelas imagens. Quando aparecem no telejornal, normalmente estão relacionados à desordem, à rebeldia, ao perigo. Espaço onde não cabe o pacato cidadão comum, aquele que assiste e tem a televisão como sua principal, senão única, escola de cidadania”.

A dissertação é concluída ao mostrar que prevalece nas notícias não o olhar do trabalhador sobre a greve, mas um olhar externo, construído para melhor controlar as possibilidades do movimento. “Retira-se dele a capacidade de múltiplas significações: tijolos de imagens e sons construindo o silêncio”, afirma o texto.

Foi exatamente no período destacado por Sônia Maria de Almeida que Antonio Brasil, professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Uerj, trabalhou na Rede Globo. Em entrevista à AGENC, Brasil explicou que, enquanto esteve na emissora, de 1973 a 1980, a questão da cobertura das greves era só mais uma das facetas da delicada relação entre a empresa e os governantes da época.

“A cobertura era sempre tímida, limitada e extremamente seletiva. As greves aconteciam, tinham que ser reportadas, mas os editores da Globo não podiam ou não ‘queriam’ desagradar os militares e seus aliados políticos”. O professor realça também que a objetividade, o equilíbrio e a imparcialidade na cobertura de greves, assim como na cobertura de tantos outros assuntos de interesse dos proprietários das empresas jornalísticas nunca existiu.

Apesar de suas afirmações, Brasil acredita que “a Globo não é necessariamente a pior, é somente a maior. Hoje, creio que melhorou muito. Não se pode comparar com a cobertura durante a Ditadura. Mas ainda é um assunto delicado”, diz.
Agência UERJ


E ainda tem gente que acredita na objetividade da notícia e na liberdade de imprensa...

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