sexta-feira, outubro 05, 2007

Do Flamengo às vacas (do Renan)

Por Fritz Utzeri

— Meeeeeeengoooooo!!!

Rosalvo, o despreocupado, entrou no Flor do Lavradio vindo direto do Maraca, nem foi dormir, ainda vestia a camisa e trazia a bandeira de seu rubro-negro. Seu Manuel (que não é preciso dizer, é vascaíno) fechou a cara, mas o dia era de Rosalvo.

— Olha aí galera, o Mengão ainda vai acabar sendo o clube carioca mais bem classificado no Brasileirão, me dá umas empadinhas de camarão (huuummmm...) e um chope bem tirado, na pressão, seu Manuel e sentou-se à mesa onde já estava Harald Magnussen, o nosso Magu, jornalista sueco, com seu lepitópi aberto sobre a mesa, algumas tulipas (o copo, não as flores, que Magu não é holandês) bebidas e outra cheia de um chope em estado de plasma. Magu tinha uma cara de inteiramente perdido.

— O que houve ó sueco? Você é botafoguense? — provocou Rosalvo.

— Eu, não, torço pelo IFK Norrköping.

— ????

— É meu time, na Suécia, o azul e branco, caímos pra superettan, a segundona de lá.

— Olha aí a segundona, igualzinho ao Coríntians, o Fluzinho já andou por essas bandas, disse provocando diretamente Fefeu, o filósofo, que é tricolor doente.

— Socorro, devo estar ficando maluco!

Aos gritos, com ar apavorado, desgrenhado, Apolônio, o indignado, apareceu na porta do Flor com cara de quem fugiu do manicômio.

Levou algum tempo para a respiração dele voltar ao normal e só dizia “Renan... Renan... Renan... estão por toda parte.... Renan...”.

— Endoidou de vez — sentenciou Nelson Vitamina degustando um rissole de carne seca que era um primor, só o cheirinho... Divino, como todos os quitutes que saem da cozinha da Otília, que, alheia à confusão, cantava o samba enredo da Caprichosos do Juramento: “Na terra de Renan, vaca por vaca, sou mais a do Playboy.”

— É isso, as vacas estão em toda parte, isso é coisa do Renan! — dizia (agitado) Apolônio que estava convencido de ter enlouquecido na hora em que foi andar na orla de Copa e deu de cara com a estátua do poeta com uma vaca enorme sentada no mesmo banco e lendo um livro! Saiu às pressas (ainda não havia bebido) quando deu com outra vaca e outra, cada uma mais estranha do que a outra e concluiu que isso devia ser coisa do Renan para desviar a atenção das vacas dele, ou então estava tendo uma alucinação etílica, mas como, se não havia bebido ainda?

Rosalvo explicou a multiplicação das vacas a Apolônio foi ficando mais sossegado, sossegado não, indignado, sinal de que voltava ao normal:
— É um escândalo um partido como o PMDB chutar para escanteio dois senadores como Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos! Caso de polícia! O PMDB deixou de ser Partido do Movimento Democrático Brasileiro e passou a ser o Prostíbulo Mor Do Brasil.

— Epa! Cuidado, Apolônio, que as coleguinhas da Bebel vão reclamar, elas não merecem isso!

Magu estava cada vez mais perdido e começou a dizer coisas desconexas em sueco.

— Esse boteco virou sucursal do Pinel, Seu Manuel, manda a Otília botar um sossega-leão no feijão e suspende o chope — palpitou Fefeu pedindo mais uma caipirinha de lima.

— Eu resolvi fazer uma reportagem a respeito das votações na Câmara e no Senado sobre a CPMF. O primeiro problema foi o editor entender o que é a CPMF e se admirou que os brasileiros aceitassem chamar de contribuição o que é um imposto compulsório e de provisório algo que já dura anos e não dá sinais de acabar. Meu editor acha que eu não entendo português e não capto o sentido exato das coisas, das palavras. Aí eu disse que os aliados do governo só votam a favor do governo em troca de favores, de cargos públicos ou de liberação de emendas milionárias e tentei traduzir “chinelinho novo” para o sueco e foi uma luta. Meu editor disse que eu estava louco ou de porre. Depois mandei uma foto do Wellington Salgado e eles me disseram que devia ter havido um engano; aquele indivíduo devia ser o campeão de “Tele catch”, jamais um senador. Minha situação já estava difícil e aí...

Aí eu resolvi contar que no Brasil o Presidente da República dispõe de 25 mil cargos para distribuir. Meu editor perguntou se eu não estava confundindo as coisas. Sustentei que não e ele me disse que, na Alemanha, o Executivo só pode mexer em 170 cargos; na Inglaterra, o Primeiro-ministro só pode influir na nomeação de 300 pessoas. Não daria nem pra comprar meio Senado ou meia Câmara brasileira.

Sobre o que está acontecendo no Senado, o meu editor me disse que devo estar maluco. Agora estou sabendo que o Supremo decidiu que os mandatos dos políticos são do partido no qual estão inscritos. Aqui os parlamentares trocam de partido como se troca de camisa, mas não vai acontecer nada, ninguém vai perder mandato, porque se não for resolvido de um jeito, será de outro e aqui ninguém vota em partido, a maioria vota é naquele que dá mais dinheiro e promete mais vantagens, dane-se o partido! Como vou explicar isso para o meu editor? E pra meus leitores? Soube que as cartas pedem pra me transferir para a sessão de humor ou da polícia...

— Melhor falar de vacas, não, conta a história do boi voador, garanto que vai fazer o maior sucesso — emendou Rosalvo catando sua bandeira, sua camisa e seguindo feliz pela rua.

— Meeeennnggooooooooo!!!


PS:Pode não ter sido a idéia do autor, mas da minha parte, associar o time flamengo a essa esculhambação e a sinônimo de presunção, faz sentido